Queria saber
escrever coisas bonitas, com ar inteligente, que as pessoas lessem e dissessem:
‘que bem escreve! Como é inteligente!...’ Mas não, quando escrevo não é isso
que acontece. Ninguém dá importância, ninguém quer sequer ler. É por isso que
escrevo só para mim. E, presentemente, escrevo para ocupar o excesso de tempo livre
que esta quarentena me trouxe. A quarentena e a chuva que não pára de cair.
Quem me havia
de dizer que iria ter tempo livre em excesso? Pois é, este vírus invisível conseguiu
essa proeza. Dou por mim sem saber o que fazer, a deambular pelas divisões da
casa, a espreitar pela janela para ver a rua completamente vazia. Levanto os
olhos para os edifícios do outro lado da rua e aceno um olá aos vizinhos que,
como eu, estão confinados às quatro paredes das suas casas. Deixo a janela e
volto para dentro equilibrando-me ora num pé ora no outro para passar o tempo.
Subitamente um
raio de sol entra pela janela criando uma faixa de luz que atravessa a sala. A chuva
parou! A chuva parou! Finalmente. Corro para a porta, saio para a varanda e
daí, para a relva que se estende até ao muro do meu pequeno jardim. Respiro fundo
e abro os braços ao sol. Nesse momento penso naqueles que não têm um jardim,
nem uma varanda mesmo que sejam pequenininhos e fico triste por eles. Nos dias
que correm ter um jardim para poder esticar as pernas longe do malfadado vírus
é um luxo.
E então
descubro com surpresa que, afinal sou rica! Sou rica e não sabia!
Sou RICA!!!
